Precificação Estratégica

Como escolher um software de precificação: o roteiro da demonstração

18 de setembro de 20266 minutos de leituraPor Edson Clementino da Silva

Três reuniões marcadas, três fornecedores de software de precificação, a mesma tela cheia de gráficos coloridos em cada uma. Depois da terceira demonstração, a maioria dos gestores sai com a sensação de ter visto três produtos parecidos e nenhuma base real para decidir. O problema não é falta de atenção: é que a demonstração é desenhada para mostrar o que funciona bem, nunca o que quebra.

Quem participa dessas reuniões já sabe, em geral, quais critérios avaliar: integração com o ERP, cálculo de imposto, regras de margem, simulação, governança, tempo de implantação. A lista existe e ajuda a organizar a pauta. O que falta é outra coisa: a pergunta específica que testa cada critério na prática, e o tipo de resposta que denuncia uma planilha bem apresentada vendida como sistema.

Este roteiro não substitui a lista de critérios — parte dela. O que ele acrescenta é a pergunta que leva o vendedor além do discurso pronto, e o sinal de alerta de quando a resposta escorrega.

A integração não é "sim, integra" — é o que acontece quando o ERP muda

A pergunta de praxe é "o sistema integra com meu ERP?". Toda demonstração responde sim. A pergunta que separa integração de promessa é outra: como a integração acontece — API, conector dedicado, arquivo exportado à mão — e com que frequência ela roda.

Depois, a pergunta que a maioria não faz e deveria: o que acontece quando o ERP passa por uma atualização de versão. Um conector mantido pelo fornecedor sobrevive à mudança; um arquivo trocado manualmente todo mês não é integração, é um processo batizado de integração.

Resposta evasiva reconhece-se pelo tempo verbal: quando o vendedor descreve a integração no presente genérico ("o sistema se conecta ao ERP") em vez de descrever o fluxo passo a passo, ele provavelmente nunca precisou explicar isso para um cliente técnico. Peça para ver a tela de configuração da integração, não o slide dela.

O imposto por item, não o imposto médio da planilha

Nenhum fornecedor brasileiro de software de precificação vai dizer que ignora imposto. A pergunta certa não é se calcula, é como calcula por item: ICMS e ICMS-ST com a MVA do estado de destino, PIS e COFINS conforme o regime da empresa, IPI onde existir, a partir do NCM e do CFOP que já estão no cadastro.

Um jeito rápido de testar isso na demonstração: peça para o vendedor rodar, ao vivo, o preço de um produto que sua empresa vende para dois estados diferentes, com MVA diferente em cada um. Se a resposta for "isso a gente ajusta depois, manualmente", o sistema trata imposto como percentual médio — exatamente o que uma planilha já faz.

Isso importa porque o erro no imposto entra direto na margem, sem aviso. Considere um item com custo de R$ 200,00 e um markup planejado de 40% sobre o custo:

  • Preço calculado com o markup correto: 200 × (1 + 0,40) = R$ 280,00
  • Se o sistema estimar a carga tributária em 2 pontos percentuais a menos do real, o preço final praticado embute um imposto que ainda não foi pago — e a margem que a diretoria acredita ter é diferente da que a operação realmente sustenta, ainda que a fórmula de markup esteja certa no papel.

O problema não está na conta. Está no dado que entrou nela.

Regras de margem que sobrevivem à exceção, não só à regra geral

Toda demonstração mostra a tela bonita de configurar margem por família de produto. A pergunta que separa sistema de planilha é a exceção: o que acontece com o item que não se encaixa em nenhuma família cadastrada, ou com o cliente que negocia fora da tabela padrão.

Vale perguntar também se a margem pode variar por canal e por curva de giro dentro da mesma família — o item de entrada de uma linha e o item de cauda quase nunca sustentam a mesma margem, e um sistema que só permite um piso e um teto fixos por categoria empurra o gestor de volta para a média arbitrária que a fórmula deveria evitar.

Uma margem única para tudo é o sintoma mais claro de que a conta está desconectada do que realmente forma o preço — do custo, da concorrência ou do valor que o cliente enxerga. Um software de precificação existe para permitir essa variação sem virar bagunça; se ele não permite, a diferença para a planilha é só visual.

Simulação, governança e prazo: onde a resposta evasiva mais aparece

Três perguntas fecham o roteiro, e nas três a resposta vaga é comum:

  • Simulação antes de ir para a loja ou para o pedido: dá para ver o efeito de um novo preço na margem, no faturamento e na posição diante da concorrência antes de aplicar, ou o preço já sai direto para o catálogo?
  • Governança de quem aprova o quê: existe alçada por usuário e por grupo, com histórico de quem mudou o quê e quando, ou qualquer pessoa com acesso ao sistema altera qualquer preço?
  • Tempo até o primeiro preço publicado: quantas semanas até a operação rodar de verdade, e não quantas semanas até o contrato ser assinado?

Nas três, o vendedor que responde com prazo e nome de tela específicos já passou por implantação real. O que responde com "isso é rápido, não se preocupe" ou "depende do seu processo interno" está descrevendo o produto que gostaria de vender, não o que a operação vai encontrar no primeiro mês de uso.

Um roteiro, não uma sentença

Nenhuma dessas perguntas elimina sozinha um fornecedor. O valor do roteiro é comparativo: a mesma pergunta, nas três reuniões, revela quem responde com processo e quem responde com slide. Depois da terceira demonstração, quem levou este roteiro sai não com a sensação de ter visto três produtos parecidos, mas com uma tabela de respostas específicas para comparar — que é exatamente o que falta na maioria das decisões de compra de software de precificação.

O critério completo, com os seis pontos de partida, está em software de precificação. E a lógica que sustenta cada uma dessas perguntas — por que imposto errado corrói margem, por que margem única é sintoma de fórmula desconectada do mercado — está detalhada em como precificar produtos no varejo.

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