Finanças & Precificação

Quanto custa um sistema de precificação: o que entra na conta

20 de setembro de 20267 minutos de leituraPor Edson Clementino da Silva

Não há tabela, e não existe forma de inventar uma

Toda proposta comercial de sistema de precificação chega com um número diferente. Uma cotação vem em R$ 800 por mês, outra em R$ 3.500, uma terceira exige contrato anual e implantação à parte. Quem está comparando essas três propostas lado a lado costuma concluir a coisa errada: que o fornecedor mais barato é o mais honesto, ou que o mais caro está empurrando recurso que ninguém pediu.

Nenhuma das duas leituras costuma ser verdadeira. O motivo pelo qual não existe tabela de preço publicada para esse tipo de sistema não é falta de transparência — é que o preço depende de variáveis da operação de quem compra, não de um plano padrão que sirva para qualquer catálogo. Este texto não inventa um número que a REVEMA não pratica. Ele desmonta o orçamento: o que faz o valor subir, o que costuma ficar fora da proposta sem aparecer, e como ler duas cotações com números diferentes sem comparar maçã com laranja.

O ponto de chegada é o outro lado da conta, que quase nunca entra na planilha de decisão: quanto custa continuar precificando do jeito que está.

O que faz o valor da mensalidade subir ou descer

Quatro variáveis pesam mais que qualquer outra na formação do preço de um sistema de precificação. Elas raramente aparecem juntas e claras na proposta — é preciso perguntar por cada uma.

Tamanho do catálogo

A maioria dos fornecedores cobra por faixa de SKUs ativos. Uma distribuidora com 40 mil itens paga mais que uma loja de bairro com 3 mil, mesmo dentro do mesmo plano nominal. Confira se a faixa contratada cobre o catálogo real, incluindo o que está inativo mas ainda precisa de reajuste sazonal — plano subdimensionado vira cobrança extra no meio do contrato.

Número de usuários com acesso

Comprador, gerente de categoria, diretoria: cada papel costuma contar como assento separado. A diferença entre um plano de 3 usuários e um de 10 usuários muda a mensalidade em proporção bem maior que a diferença de recursos entre os dois planos — porque o fornecedor está cobrando por quantas pessoas tomam decisão de preço dentro daquele contrato, não pela funcionalidade em si.

Quantas lojas, CNPJs ou canais o sistema precisa enxergar

Uma rede com preço diferente por loja, ou uma indústria com tabela por canal de venda, exige uma camada de regra que uma operação de loja única não paga. É aqui que a proposta mais varia de um fornecedor para outro: alguns cobram por unidade de negócio, outros por volume total processado, e a diferença entre os dois modelos pode inverter qual proposta é mais barata dependendo de como a empresa está organizada.

Integração com o ERP já instalado

Ler custo, cadastro e venda do ERP é metade do trabalho; devolver o preço aprovado de volta é a outra metade. Integração pronta com o ERP que a empresa já usa custa diferente de integração sob medida — e o valor dessa diferença costuma aparecer só na segunda reunião, depois que o fornecedor já sabe qual sistema está do outro lado.

O que costuma ficar fora da proposta inicial

Um levantamento de mercado sério não compara só a mensalidade — compara o custo total do primeiro ano, porque é aí que a diferença entre propostas aparentemente parecidas se revela.

  • Implantação. Cobrada à parte na maioria dos contratos, e o intervalo entre fornecedores é grande. Pergunte se o valor é fixo ou varia conforme o volume de dados migrado.
  • Treinamento da equipe. Às vezes incluso, às vezes cobrado por turma ou por hora. Sistema sem treinamento vira sistema subutilizado — a equipe volta para a planilha assim que a regra fica um pouco mais complexa.
  • Suporte fora do horário comercial. Relevante para quem ajusta preço de madrugada, antes da abertura da loja no dia seguinte. Nem toda proposta inclui esse nível de suporte no plano padrão.
  • Reajuste anual e política de fidelidade. Contrato de 12 ou 24 meses costuma vir com desconto na mensalidade e multa de saída. Vale perguntar qual é o índice de reajuste contratado, não só o valor do primeiro ano.
  • Limite de simulações ou de reprocessamento. Alguns planos cobram por rodada de recálculo do catálogo inteiro. Uma empresa que reajusta preço toda semana consome esse limite rápido.

Cada um desses itens, somado, pode representar mais do dobro do valor da mensalidade anunciada no primeiro contato comercial.

Como comparar duas propostas com números diferentes

O erro mais comum é comparar mensalidade contra mensalidade. O jeito mais confiável é montar uma tabela simples, com as mesmas cinco linhas para cada proposta: mensalidade, implantação, treinamento, limite de uso incluso e multa de saída. Divida o total do primeiro ano pelo número de meses — esse é o número que de fato compara.

Um exemplo com valores ilustrativos, só para mostrar o método: a Proposta A cobra R$ 1.200 por mês, com implantação de R$ 4.000 e treinamento incluso. A Proposta B cobra R$ 900 por mês, com implantação de R$ 9.000 e treinamento cobrado à parte, R$ 1.500. No primeiro ano, a Proposta A soma R$ 18.400 (12 × 1.200 + 4.000); a Proposta B soma R$ 21.300 (12 × 900 + 9.000 + 1.500). A proposta com mensalidade mais baixa termina mais cara no primeiro ano — o inverso do que a primeira olhada sugeriria.

Peça também o valor do segundo ano, sem os custos de implantação e treinamento que só existem uma vez. É nesse número que a mensalidade "real" do sistema aparece, e é ele que deveria pesar mais na decisão de longo prazo.

O outro lado da conta: quanto custa continuar como está

A pergunta que falta na maioria das reuniões de compra não é "quanto custa o sistema", é "quanto custa a ausência dele". Uma pesquisa de mestrado da FIPECAFI, conduzida por Edson Clementino da Silva em 2023 com 70 gestores de pequenas empresas, testou justamente isso: separou os participantes em três grupos com informação crescente disponível para precificar o mesmo produto. Só o grupo que tinha uma planilha de cálculo e simulação — não apenas os números de custo, mas um instrumento para processá-los — chegou perto do preço tecnicamente correto, com média de R$ 266,22 contra o valor certo de R$ 263,29, e desvio padrão de R$ 3,93. Os outros dois grupos, mesmo vendo os mesmos dados de custo, erraram mais e de forma mais dispersa.

A conclusão do estudo é direta: ver o custo não melhora a decisão de preço. O que melhora é ter um método para calculá-lo e simulá-lo antes de aplicar. Isso vale tanto para quem usa planilha quanto para quem usa sistema — a diferença é que a planilha manual aguenta mal esse trabalho a partir de algumas dezenas de itens, quando a variação de margem por produto e por cliente deixa de caber numa fórmula única.

O custo de continuar sem esse método não aparece em nenhuma fatura, mas aparece no resultado: preço reajustado tarde, margem que não reflete a diferença entre produtos, e decisão de preço concentrada numa única pessoa que não tem tempo de revisar catálogo inteiro toda semana. Comparar duas propostas de sistema é parte da conta. A outra parte é medir o que o catálogo perde enquanto a decisão de comprar se arrasta. O roteiro completo de como montar essa conta do zero, item por item, está em como precificar produtos no varejo. Para quem já decidiu que a planilha chegou ao limite e quer entender a categoria antes de falar com um fornecedor, o ponto de partida é o que é e como escolher um software de precificação.

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