Custo & Precificação

Ver o custo não basta: o que a pesquisa mostrou sobre decisão de preço

21 de setembro de 20266 minutos de leituraPor Edson Clementino da Silva

Existe uma crença quase universal entre quem precifica sozinho, sem departamento financeiro para apoiar a decisão: se eu conseguisse ver meus custos com clareza — cada centavo de matéria-prima, cada fatia de aluguel rateada por produto — eu ia parar de errar o preço. A lógica parece óbvia. Preço errado nasceria de custo invisível.

Um experimento acadêmico testou essa crença diretamente, com gestores reais de pequenas empresas resolvendo o mesmo problema de precificação. O resultado contraria a intuição: ver o custo, sozinho, não muda a qualidade da decisão. O que muda é outra coisa, e ela raramente aparece na lista de prioridades de quem está sobrecarregado tocando a operação.

Vale entender o desenho do teste antes de discutir o que ele encontrou, porque a forma como a pesquisa separou as variáveis é o que dá força à conclusão.

O experimento: três cenários, setenta respostas

Uma pesquisa de mestrado da FIPECAFI, conduzida por Edson Clementino da Silva em 2023 com gestores de pequenas empresas, montou um estudo de caso de precificação e distribuiu os participantes em três grupos, cada um recebendo um nível diferente de informação para resolver o mesmo problema.

O primeiro grupo via apenas o preço do produto e o preço praticado pelo mercado. O segundo recebia tudo isso e mais os custos e despesas fixas e variáveis da operação. O terceiro tinha acesso ao mesmo pacote do segundo grupo, mas ganhava também uma planilha de cálculo e simulação, construída para aplicar as principais teorias de precificação ao problema. Setenta respostas válidas se dividiram entre os três cenários, com uma resposta técnica correta já calculada pelo pesquisador como referência de comparação.

A separação é o ponto central do desenho: ela isola o efeito de "ver o custo" do efeito de "ter um método para processar o que se vê". São duas coisas diferentes, e é exatamente aí que a maioria dos negócios confunde os dois.

As duas hipóteses que estavam em jogo

A pesquisa testou formalmente duas hipóteses sobre o que melhora a acurácia do preço.

A primeira: que a visibilidade da informação de custo, por si só, melhora a assertividade da decisão de preço. Essa hipótese foi rejeitada. O grupo que só ganhou visibilidade de custo, sem instrumento de cálculo, não teve desempenho superior ao grupo que nem tinha acesso a essa informação.

A segunda: que a disponibilidade de um instrumento de suporte ao cálculo melhora a assertividade da decisão. Essa hipótese foi aceita, e com folga. O grupo que teve a planilha de simulação chegou mais perto do preço tecnicamente correto e com uma dispersão de respostas bem menor que os outros dois — ou seja, não foi só mais preciso na média, foi mais consistente entre um respondente e outro.

O achado incomoda quem já investiu tempo organizando uma planilha de custos detalhada, mas não fecha o processo com uma etapa de cálculo e simulação. O trabalho de levantar o custo, sozinho, não é o que faltava.

Por que ver o número não é a mesma coisa que decidir com ele

A explicação passa por uma distinção simples: a fórmula que uma empresa usa para chegar ao preço não é a mesma coisa que a informação que efetivamente decide esse preço. É possível ter o custo todo mapeado, em uma planilha impecável, e mesmo assim aplicar uma margem arbitrária — a mesma porcentagem para produtos diferentes, para clientes diferentes, sem relação com o quanto o mercado paga por cada um. Nesse caso, o custo está visível, mas não está conectado a nada além de si mesmo.

O instrumento de cálculo muda esse quadro porque obriga a margem a responder por outras variáveis: ponto de equilíbrio, margem de contribuição por produto, simulação de cenário com volume diferente. A margem deixa de ser um número fixo decorado e passa a ser o elo entre o custo e o que a operação sabe sobre concorrência e sobre o que o cliente aceita pagar. É esse elo que falta quando a planilha só lista despesas, sem calcular o que fazer com elas.

Também ajuda notar o que a pesquisa não encontrou: nenhuma característica do gestor — escolaridade, tempo de experiência, setor de atuação — explicou por que um grupo teve mais acerto que outro. A variável que separou quem acertou de quem errou foi puramente instrumental. Isso tira a conversa do terreno de "é preciso ser mais capacitado" e coloca no terreno de "falta ferramenta", o que é um problema mais fácil de resolver.

Uma conta simples que mostra a diferença

Pegue um produto com custo unitário de R$ 120. Uma empresa que só enxerga esse número, sem instrumento de cálculo, tende a aplicar a mesma margem que já usa para tudo — digamos, um markup de 35% sobre o custo, só porque "sempre foi assim":

preço = custo × (1 + markup) = 120 × 1,35 = R$ 162,00

Agora, a mesma empresa rodando o mesmo custo em um instrumento de simulação descobre que, para esse produto específico, o ponto de equilíbrio da linha exige uma margem maior — porque o volume de venda é mais baixo e o produto carrega mais despesa fixa proporcional. Ajustando o markup para 55% para essa linha, sem mexer no markup das outras:

preço = custo × (1 + markup) = 120 × 1,55 = R$ 186,00

A diferença de R$ 24,00 por unidade não veio de enxergar melhor o custo — o custo de R$ 120 era conhecido nos dois casos. Veio de ter um cálculo que mostrou que aquele produto, especificamente, não sustenta a margem padrão da casa. Esse é o tipo de ajuste que só aparece quando existe simulação, não quando existe apenas visibilidade.

O que fazer com isso na prática

Para quem toma decisão de preço sem uma área dedicada a isso, três mudanças de postura seguem direto do achado da pesquisa:

  • Separar "conhecer o custo" de "calcular o preço" como duas etapas distintas — a primeira é levantamento, a segunda é método, e uma não substitui a outra.
  • Desconfiar de margem única aplicada a todo o catálogo: é o sintoma mais comum de que o custo está visível, mas não conectado a nada.
  • Priorizar, antes de qualquer planilha nova de custos, uma ferramenta que simule preço, margem de contribuição e ponto de equilíbrio a partir do que já está levantado.

A planilha de precificação é um ponto de partida para quem ainda não tem esse instrumento montado. Para simular um preço específico a partir do custo e da margem desejada, a calculadora de preço de venda resolve a conta na hora.

O que a pesquisa deixa como conclusão não é que custo não importa — é que ele é condição necessária, mas nunca suficiente. Uma pequena empresa pode ter a planilha de custo mais detalhada do setor e continuar errando o preço, porque o problema nunca esteve em enxergar o número. Está em ter um método que transforme esse número em decisão.

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